A LINHA RETA DE SETEMBRO
Opinião de Luísa Maria, in “Funchal Notícias”, 28/09/2026
Setembro é (do regresso à) rotina. Poderá ser de uma rotina de comunicação tóxica. Ou de um estilo de vida que não precise de regressos à rotina.
Há pessoas que através das palavras nos pisam sem querer, outras sabem completamente onde estão a pôr os pés. Convém transmitir, desde cedo, às nossas crianças a aprendizagem desta diferença. Na comunicação não vale tudo. No momento em que a linguística acaba, começa a individualidade. A argumentação credível está em vias de supressão. Foi substituída por falar alto e, rapidamente, chegamos à discussão. É uma fronteira suficientemente racional. Iniciará o desejo infantil de reclamar.
A criança pede. Os pais cedem. E a conta chegará anos depois. A longo prazo este ciclo comunicativo é destrutivo. Quase nenhuma criança precisa aprender o sim. Já o não precisam de aprender. E quando um pai diz não, o filho não perde nada. Está a ganhar a oportunidade de querer muito, não ter e descobrir que continua a viver de forma inteira e que terá de fazer para conquistar. É a base que sustentará o futuro adulto. E é nesta cedência que os pais tentam resolver um desconforto momentâneo e criam futuramente um problema maior. A criança em vez de aprender o não, aprende que insistir funciona. Repete. Se funcionar outra vez, a criança aprende a manipular os pais. Ganha. Sente alívio e prazer. Quer. Insiste. Consegue. O cérebro regista o caminho que funciona. E o respeito desnorteia-se.

Treinar o esperar, treinar a sustentação da frustração e seguir em frente sem ter o que pediu é treino. Quando o tempo se fizer sentir e ser adolescente e adulto consiga e saiba dizer sozinho não à droga, à uma relação tóxica, ao que sentir dizer não na sua total liberdade.
A criança necessita lidar e aprender que até pode querer muito algo e ainda assim ficar bem quando a resposta for não. Os pais precisam de aprender a sustentar o não. A comunicação saudável acontece quando antes de aprender algo é essencial respeitar o outro, antes de saber falar é preciso saber ouvir, antes de defender uma ideia é preciso aprender que alguém pode pensar diferente e estar certo.
Aqui exponho os códigos de convivência. Como tratamos quem pensa diferente, a pragmática da nossa comunicação, ouvimos, perguntamos, esperamos a nossa vez, olhamos nos olhos. A terapia da fala vai muito para além da patologia. Com cada experiência e repetição, as conexões são criadas e fortalecidas e o cérebro da criança aprende. Neuroplasticidade. O cérebro modifica-se com o que a criança vive e repete. E um dia, a criança conseguirá.
As crianças recebem uma herança genética, mas os genes não atuam isoladamente. Ambiente, relações e experiências também participam na expressão dos genes. A epigenética. A infância é a faixa temporal do território que todos nós pisamos a vida inteira. A faixa temporal passará. A base fica a vida inteira.

Pais acredito que o que mais querem é envelhecer bem, com saúde, força e disposição para viver e partilharem muitos momentos e acompanhar as conquistas dos vossos filhos e o crescimento dos netos. A rotina mais simples e não é fácil é cuidar do vosso sono, saúde mental, alimentação cuidada, exercício físico, hidratação, ambientes saudáveis, momentos de relaxamento e manter a rotina organizada.
Setembro não deveria ser “do regresso” à rotina.
Setembro é manter a rotina organizada.
Drª. Luísa Maria
Terapeuta da Fala
Especialista em Miofuncional Orofacial